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coisas que eu preciso aprender
De Cartas a um Jovem Poeta
Maio 14, 1904, Rome Amar também é bom: porque o amor é difícil. O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta, a maior e última prova, a obra para a qual todas as outras são apenas uma preparação. Por isso, pessoas jovens que ainda são estreantes em tudo, não sabem amar: tem que aprendê-lo. Com todo o seu ser, com todas as suas forças concentradas em seu coração solitário, medroso e palpitante, devem aprender a amar. Mas a aprendizagem é sempre uma longa clausura. Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento cada vez mais intenso e profundo. O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. Que sentido teria, com efeito, a união com algo não esclarecido, inacabado, dependente? O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo em si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser; é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe. Do amor que lhes é dado, os jovens deveriam servir-se unicamente como de um convite para trabalhar em si mesmos. A fusão com outro, a entrega de si, toda a espécie de comunhão não são para eles; são algo de acabado para o qual, talvez, mal chegue atualmente a vida humana. Creio que aquele amor persiste tão forte e poderoso em sua memória justamente por ter sido sua primeira solidão profunda e o primeiro trabalho interior com que moldou a sua vida.
Rainer Maria Rilke
Escrito por carlos às 15h03
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Impossível
Biquini Cavadão
Tudo bem Quando termina bem Os seus olhos E os seus olhos Não estão rasos d'água Mas eu sei que no coração Ficaram muitas palavras Um vocabulário inteiro De ilusão...
Tudo que viceja Também pode agonizar E perder seu brilho Em poucas semanas E não podemos evitar Que a vida trabalhe Com o seu relógio invisível Tirando o tempo de tudo Que é perecível...
Oh, oh, oh! É impossível, é impossível Esquecer você É impossível Esquecer o que vivi É impossível Esquecer, o que senti...
Tudo que morre Fica vivo na lembrança Como é difícil viver Carregando um cemitério na cabeça Mas antes que eu me esqueça Antes que tudo se acabe Eu preciso Eu preciso, dizer a verdade...
É impossível, é impossível Esquecer você É impossível Esquecer o que vivi É impossível Esquecer, o que senti... É impossível...
***
Sem mais palavras...
Escrito por carlos às 12h12
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Saímos abraçados na madrugada, como se já não fosse possível viver um sem o calor do outro, como se todas as coisas se resumissem no fundo de teus olhos quando eu os miro assim tão perto dos meus.
Havia a chuva caindo nos telhados e o vento chacoalhava a cidade, mas nada era impossível para nós: a minha força se resumia em estar junto de ti, como se duas fragilidades unidas pelos laços do sonho pudessem enfrentar mesmo as garras certeiras da guerra.
Mas no fundo, nosso amor era como uma casa construída ao pé da montanha, fadada a ser arrasada por uma avalanche a qualquer momento.
Dias depois, amanheceu. Olhei nos teus olhos e já não havia nada, nem teus braços me aqueciam como antes. A chuva levou os telhados, algumas vidas e o meu amor por ti.
No fim das contas, duas fragilidades, mesmo unidas, são tão poderosas quanto os dois espinhos de uma rosa.
Escrito por carlos às 15h32
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Eis que digo ao poeta:
É deveras dor, a dor que sinto!
Onde dói não sei,
Nunca soube,
Talvez nunca chegue a saber
Mas é dor, poeta, e não finjo!
Quando, enfim, eu aprender a fingir
Este poema,
Este que sempre esteve aqui na garganta,
Como uma ânsia de vômito que não se realiza,
Como um espirro que morre no interior das narinas,
Este poema virá a ser.
Porque a verdade, poeta,
É crua demais para caber num poema.
Escrito por carlos às 14h01
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Este poema é uma ejaculação precoce
Um aborto,
A morte da semente no seio da terra,
O óvulo expelido na menstruação;
Este poema vive de não ser;
É a paz mundial
A dignidade do miserável
A música não terminada
A vida de todas as pedras
Este poema não nasceu
Nem é um poema
Nem há palavras no dicionário para ele
É um grito mudo
A visão aterradora do cego
O corte indolor na carne
O excesso de sangue de uma vida anêmica
A união da vida com a morte
A mistura homogênea de água e fogo
A dor no membro que nunca existiu
A existência da morte antes da vida
A cópia antes do original
É tudo que não merece crédito ou atenção
E é por isso que nunca foi escrito.
Escrito por carlos às 13h25
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Não há mais tardes sangrentas nos teus olhos trepidantes
Não há mais tédios dissimulados em nossos prédios mal acabados
Tudo se foi, cambaleando no mormaço dos meio-dias escaldantes
Tudo se derreteu e se acabou, como um pacote esparramado na sede
Agora nos resta seguir enclausurados em nossos sorrisos sinceros,
em nossos abraços repletos de ternura fraterna;
Agora nos resta festejar todos os dias a nossa falta de ideais por que lutar.
- Não há nada mais castrante que um objetivo alcançado.
Escrito por carlos às 09h59
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Feliz Ano Novo!!!!
Último dia do ano e eu aqui pensando com os meus botões no que se faz em um último-dia-do-ano. Correr, pular, gritar, girar, cantar, jogar tudo para o ar...? Não sei não, mas acredito que mesmo para os mais céticos é difícil não se deixar envolver por essa sensação de que alguma coisa fica para trás e de que algo novo, uma nova etapa, uma nova chance vem por aí. De quê? É possível que a grande maioria não saiba o que realmente espera do ano que nascerá após às 23 horas 59 minutos e 59 segundos do dia 31 de dezembro de 2007. Só mais uma noite de farra, de pegar as meninas, de cair na gandaia, de fazer carnaval? Com certeza isso está na cabeça de um grande número de pessoas. Mas não se pode negar, é como se nascesse no espírito coletivo uma esperança de um amanhã melhor para todos, não há dúvidas que os ânimos estão mais propícios à reconciliação, à confraternização, todo mundo abraçando todo mundo no meio da rua depois das 00:00hs.
Por mais que as pessoas não gostem, mesmo inconscientemente fazem uma avaliação do ano que termina e projetos para o ano que se inicia. Até eu - que não sou de fazer projetos e, mesmo quando os faço não cumpro ou não termino – estou aqui fazendo os meus. Já não são aqueles sonhos de anos atrás, de acreditar em ver paz universal acontecer durante esta vida – essa utopia ainda sobrevive em mim mais como força impulsionadora do que como uma crença pueril. São propósitos mais simples que visam mais trabalhar o meu interior do que bens e conquistas materiais. Quero dar mais passos em direção ao conhecimento do Deus que eu decidi seguir, conhecendo mais a sua palavra e principalmente partindo para a ação na comunidade cristã à qual Ele por seus caminhos sinuosos me fez chegar. Do conhecimento de Deus e do seguimento da Sua Santa Palavra vem os maiores bens que procuro na vida: amor, perdão, comunhão com Ele e com o próximo, paz – a paz inquieta dos que esperam em Deus, mas não cessam de orar e se deixar ser instrumento Dele aqui na terra através do trabalho missionário, profético e de defesa dos fracos e oprimidos. Aproximar-me mais de Deus: este o meu propósito para este ano.
E você, o que esta atmosfera das festas de fim de ano fez brotar no seu coração?
Um grande abraço a todos e um Feliz Ano Novo!!!
Escrito por carlos às 14h00
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Folha em branco
Nestas páginas mortas
mato o instante que passa,
como se arranca uma folha bonita
para colá-la no caderno.
Estas palavras são minhas agora
e eu as colo no meu caderno.
Talvez elas sequem como as folhas
e depois de algum tempo,
quando forem lidas,
sejam quase piores que folhas em branco...
Que importa!
Quero as folhas em branco,
as folhas mortas,
as palavras vazias.
Quero-as agora, apenas,
mesmo sem saber pra quê ou até quando,
mesmo sem poesia, sem sonho,
mesmo no anonimato.
Quero-as como se quer abrir os olhos no dia seguinte,
como se quer a cama no fim do dia.
Escolho-as como quem desce a ladeira
ou pega um atalho para chegar a lugar nenhum
- as palavras são caminhos de se perder.
Eu, que nunca soube onde estou,
as tenho como guias nesta hora em que,
entre folhas mortas e folhas que morrem,
transito no veículo verbal
sem nada a oferecer
nem nada a pedir
- esvazio-me.
Para me tornar, quem sabe,
uma folha em branco,
uma morta folha em branco
esperando que a vida lhe dê utilidade.
Uma folha em branco...
Escrito por carlos às 19h11
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Saudações fantasmagóricas de um ser que havia morrido para o mundo dos blogs e hoje ressurge com um novo texto, após 2 meses (!) sem postar. (risos)
Como minha mente tem se ocupado muito em se apropriar das idéias dos outros, que, em outras palavras, é o que a gente faz no início de um curso superior, pelo menos no Brasil, não tenho escrito textos literários, crônicas, enfim, nada que não seja trabalho da faculdade. Pra ser mais exato, outro dia arrisquei um poema, mas ele saiu tão fraquinho, tão mofino, que o máximo que eu consegui sentir por ele foi pena. Deixei-o de lado por uns três dias depois dos quais fui lê-lo novamente para ver se era apenas impressão e consegui até ver alguma beleza poética nele, o que decorre, penso eu, daquele nosso velho e conhecido instinto coruja, né, de a gente achar bonito os filhos – no caso, os poemas – da gente. Deixemos o mau poema de lado.
Nestes últimos dois meses tenho feito algumas descobertas muito interessantes do ponto de vista da informação, mais precisamente, das fontes de informação. Eu não leio jornais, não encontro tempo entre trabalho-estudo-igreja-namoro para ler jornais, aliás, para ler qualquer coisa. Se leio ainda, é por pura persistência, porque meus locais de leitura são a parada de ônibus, o próprio ônibus (quando consigo sentar, o que é raro), intervalos entre as aulas, hora do almoço no trabalho, das 22:30 – horário que chego da faculdade- às 2:00 da madrugada, no máximo. Então tenho procurado selecionar muito bem o que leio, já que, nesse tempo escasso, ainda tenho que me apropriar das idéias dos outros, como disse no início.
Esse é o meu terceiro ano de assinante da revista Época. No princípio, achava fascinante esse novo mundo que a mencionada revista semanal me trazia através das suas matérias, eu que sempre quis estar mais a par do meu mundo, mas pela maldita falta do dinheiro, ou talvez seja melhor dizer, pela falta do maldito dinheiro, eu não tinha acesso a jornais e revistas. Então, quando comecei a trabalhar, uma das primeiras coisas que fiz foi assinar uma das revistas semanais de maior circulação pelo país, a dita cuja. Não que eu tivesse boas referências sobre ela. Na verdade, no mundo em que eu vivia na época, não conhecia ninguém que lesse uma revista semanal, nem mesmo a pessoa mais esclarecida com quem conversava, o meu melhor amigo que era oficial de justiça do Tribunal Regional do Trabalho aqui em Manaus. Só sabia que não gostava das outras duas revistas, a Isto É e a Veja. A primeira nunca me chamou muito a atenção, não sei dizer bem o porquê. Já sobre a segunda, eu nunca gostei do estilo dos colaboradores da tal revista, pois, muita vez, em lugar de apresentarem seus argumentos contra uma situação ou pessoa sobre a qual apresenta uma crítica ferrenha, utilizando-se para isso apenas de idéias e palavras bem colocadas, utilizam palavras que pretendem diminuir a pessoa criticada, não só no plano ideológico ou intelectual, mas como pessoa mesmo. Caso emblemático do qual me servirei como exemplo foi a invasão da reitoria da USP em maio deste ano, quando os repórteres ao descreverem o lugar ocupado, falaram em “fedentina”, chamaram os alunos de arruaceiros, amotinados, etc. Sinceramente, uma linguagem que não gosto de ler; gente não argumenta apenas com idéias, mas precisa usar de agressividade, xingar e diminuir quem critica. Pra mim, isso é falta de maturidade intelectual. Foi por isso que escolhi a Época.
No início eu devorava a revista de cabo a rabo. Lia todas as matérias, comecei a me interessar por política – era o início de 2005, o último ano do primeiro mandato do Lula, pelo qual tinha uma enorme simpatia. Pouco tempo depois estoura o escândalo do “mensalão”, com o Roberto Jefferson fazendo todas aquelas declarações bombásticas, o corre-corre no governo pra saber qual o modo de reagir, de desmentir o dedo-duro, aquela confusão. E eu acompanhando tudo pelas palavras dos repórteres da Època. Hoje consigo ver como a revista tenta mostrar só um lado da moeda, a de que o governo é corrupto, de que o Brasil não se desenvolve, que este é o pior governo de todos os tempos no Brasil – e se fala isso com uma convicção que às vezes me assusta. Às vezes eu me pergunto: - Meu Deus! Será que esse povo fecha os olhos para a história? Será que a mídia é mesmo elitista e golpista como o Lula tentou mostrar no ano passado, durante a campanha da reeleição? Será que esse governo, por corrupto que seja, pode ser comparado aos das oligarquias do café e do leite do início do século XX, antes da era Vargas? Será que se fecham os olhos para tudo o que ocorreu durante o governo do seu antecessor, o FHC, onde tantos escândalos também foram cobertos pela própria mídia? E muitas outras perguntas foram surgindo na minha cabeça sobre o modo de se fazer jornalismo no Brasil. Mesmo assim eu acabei renovando a assinatura da Época. Confesso que a partir de um determinado momento eu passei a gostar mais das seções de crônicas (Ricardo Freire, Maitê Proença, Bibi da Pieve etc.) do que das matérias propriamente ditas. Este ano tenho acompanhado com prazer as séries de matérias sobre o aquecimento global, sobre a educação que dá certo no Brasil e sobre as iniciativas de ONGs que melhoram a vida das pessoas que realmente precisam. A parte política eu quase nem leio. E sabem por quê? Porque a época não é imparcial coisa nenhuma quando se trata de falar do governo. Nem ela, nem os principais veículos de informação no Brasil. E não só quando falam do governo. Até na escolha das suas pautas de reportagem mostram uma preferência elitista. Um exemplo é a grande cobertura a respeito do caos nos aeroportos. Concordo plenamente que é um problema de grande vulto, que merece toda a cobertura, pois atrapalha quem quer viajar a passeio, a trabalho, o transporte de cargas etc. No entanto eu me pergunto por que o caos nos transportes públicos urbanos – ônibus, metrô etc. – não merecem atenção dos nossos grandes veículos de informação, já que atinge diariamente a grande maioria da população. Será que é porque não é do interesse da elite e da classe média, que transita pelas ruas de carro? Acredito que sim, até que me provem o contrário.
Foi procurando alternativas a este tipo de jornalismo, pois meu espírito utópico sempre acredita que nem tudo está perdido, que encontrei revistas como a Caros Amigos e a Fórum, que trabalham quase como oposição às outras citadas acima. Estou ainda avaliando se elas servem ao que procuro, mas à primeira vista me agradaram bastante, sobretudo a primeira. O tempo e a experiência confirmarão se sim ou não.
Escrito por carlos às 15h38
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Pára-raios
Já ouviram a expressão pára-raios? Creio que sim, mas, por via das dúvidas, vou deixar uma breve explicação para possíveis leitores não brasileiros ou residentes em lugares na qual esta expressão não é utilizada com este significado. Pára-raios é aquele instrumento que serve para evitar que relâmpagos atinjam o local onde são instalados. Foi durante o serviço militar que ouvi pela primeira vez pára-raios com o significado de “indivíduo que atrai coisas ruins” (advertências, problemas, missões mais difíceis, etc.). Tudo isso para dizer que eu sou uma espécie de pára-raios dentro do ônibus.
Não vai ser novidade algum se eu falar pra vocês dos ônibus lotados, a não ser que você more em uma cidade pequena onde o principal meio de transporte é a motocicleta. Mas se você mora em uma cidade grande brasileira, sabe direitinho do que estou falando. Eu detesto esperar ônibus na parada e detesto muito mais quando ele passa tão lotado que passa direto pela parada porque não cabe mais ninguém. Pra evitar me estressar mais ainda, quando não tenho compromisso depois do trabalho, como agora que estou de férias da faculdade, pego ônibus indo para o centro da cidade e gasto em média 40 minutos a mais pra chegar em casa para ir sentado. Aí é que entra a parte do pára-raios.
É que às vezes (muitas vezes!) o tiro sai pela culatra. Eu entro no ônibus indo para o centro, espero as pessoas que estão indo para a aula em colégios de lá naquela hora descerem e pego um lugar legal pra sentar. Ainda no centro, o ônibus já fica sem lugares pra sentar e com muitas pessoas em pé. Como sabemos, os idosos tem passe livre, além de terem a prerrogativa de três lugares prioritários para eles dentro do ônibus (pelo menos em Manaus). Ultimamente tem tantos idosos pegando ônibus que vocês precisam ver! Os três lugares não são nem de longe o bastante para atender a demanda, até porque os deficientes e as gestantes também tem essa prerrogativa, sem contar com as mães que andam com filho de colo. É uma coisa! Só se vê gente levantando pra dar lugar pra essas pessoas. Não que eu ache errado, que eles não merecem. Por uma questão de educação e bom senso, é claro que o lugar deve ser dado a eles. Mas, convenhamos: no meu caso, que pego o ônibus indo para o centro só pra ir sentado, é muito chato ter que cedê-lo depois pra quem quer que seja. Com o tempo, fui aprendendo algumas táticas pra ver se escapo dessa obrigação. Eis algumas delas:
- Não sentar nos bancos da frente, quando a entrada franca for pela porta da frente, ou nos bancos de trás, quando a entrada franca for pela porta de trás. Os ônibus geralmente estão tão lotados que é um sacrifício muito grande para os velhinhos se espremer no meio das pessoas para ir para o meio do ônibus. Assim, pelo menos teoricamente, os lugares do meio e seriam os melhores lugares, pois atrás – ou na frente, dependendo da situação – ainda poderiam aparecer as mães com criança de colo e ficar olhando com aquela cara de pidona.
- Quando a cadeira for dupla e houver possibilidade de escolha, sentar na adjacente à janela. (Perdoem-me o adjacente, sei que soa meio fresco, mas não consegui pensar em outra palavra). Essa é mais óbvia: se alguém tiver que ceder lugar, será a pessoa que está sentada na cadeira do lado do corredor.
- Bem, no caso de não haver mais lugar nas cadeiras do meio ou nas adjacentes à janela, ainda se pode apelar fingindo que está dormindo ou dizendo que está com problemas de joelho. Esta, por motivos éticos, só é recomendável nos dias em que você estiver muito cansado. Porque, afinal de contas, há outras pessoas no ônibus que podem ceder a cadeira, não há?
Mas e quando nem a experiência dos muitos anos andando de ônibus pode nos salvar de ter que levantar para ceder aquele lugar que foi conquistado com tanto sacrifício? Aí, meu amigo, pode se considerar num dia de pára-raios. Deixem-me contar uma das minhas experiências pra vocês.
Houve um dia em que cumpri minha cartilha perfeitamente. Pensei comigo mesmo “hoje não tem risco de eu ter que levantar. Sentei em uma cadeira do meio e perto da janela.” Ledo engano. Estava eu bem acomodado, lendo minha revistinha (sim, eu leio no ônibus), quando me aparece um deficiente físico carregando um pacote imenso. Todo mundo foi abrindo passagem e ele foi pedir logo para quem levantar? EU! Puts! O cara queria sentar “na janela” porque com o pacote que ele carregava ficava ruim de sentar no corredor, pois, com o ônibus lotado, as pessoas ficariam apertando o coitado contra o seu pacote. Eu posso com isso? E não dava nem pra usar a tática número três, já que o ônibus inteiro estava comovido com o pobre deficiente que não podia ficar em pé nem sentar na cadeira do corredor. Aí, eu levantei, é óbvio.
Bem, chegou a hora de ir para casa. Hoje não vou ter uma experiência pára-raio. Consegui uma carona até a porta de casa. Legal, né? O chato é que é só por hoje. Mas, um dia, ainda vou ter o meu carrinho.
Um dia
Escrito por carlos às 19h08
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1. Quem sou? Onde estou? Pra onde vou?
Não, você não quereria saber sobre mim. Basta saber que sou um ser insignificante, que não vale à pena conhecer porque... Talvez você me achasse repugnante caso soubesse de mim – e aí haveria interesse em me conhecer, porque eu já teria ao menos uma qualidade, ainda que ruim, para satisfazer a sua curiosidade. Mas, ao menos por enquanto, quero permanecer oculto no anonimato, pois isso me dá liberdade para falar sobre o que quiser por meio dessas palavras escritas ao acaso. Ao acaso? Você acredita em acaso? Eu acredito. Outras vezes duvido. Antes pensava no acaso como momentos de distração de Deus, que ainda está construindo o seu universo e às vezes se detém para um dedo de prosa com... Ou sei, lá, para coçar o pé, admirar uma bela mulher, o mar... Agora, simplesmente não penso. Vezenquando me pego cantando “O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído” e me divirto pensando no que aconteceria se o acaso também acabasse se distraindo. Poderá haver algo mais casual que o acaso?
2. Perceber essa mania de “mais”, “menos” e “igual”. Porque é tão difícil olhar para as coisas sem compará-las, rotulá-las e classificá-las? Às vezes, ver as coisas como são poderia ajudar a viver melhor. A prevenir doenças do coração, por exemplo. Por isso gosto de ler Alberto Caeiro e fazer o exercício de olhar o abieiro na frente de casa como uma simples árvore frutífera que dá abiu. Que importa se ela é mais alta que a grama que está do lado dela ou mais baixa que o abacateiro que derrubamos para construir a casa, já que não tinha espaço no terreno? Mas nem sempre consigo olhar o abieiro da frente de casa como uma árvore única no meio de tantas outras, um pedaço de vida completamente extraordinário em si mesmo, pelo simples fato de ser o que é. Saber que nele acontecem vários e vários processos químicos e físicos complexos que vão culminar na produção do oxigênio que respiro ou na produção dos frutos em determinada época do ano. Eu gostava mais do abacateiro. Por nada, não, mas é que eu não gosto de abiu. De abacate eu gosto bastante. Por um acaso, o abacateiro estava plantado na parte do terreno que precisávamos para expandir a casa, pois o tamanho dela quando a compramos não era suficiente para seis pessoas.
3. Antes de olhar para o abieiro eu olhava a mata que dava pra ver da frente de casa, por detrás do quintal do vizinho da frente. Gostava bastante de descer a ladeira de casa olhando para aquelas árvores centenárias. Sou um perfeito exemplar de homo urbanus, me criei e vivi sempre na cidade, mas tenho um gosto pelo verde que não sei explicar. De certa forma eu me sinto mais humano em contato com o verde, pelo menos nas poucas vezes em que tenho a oportunidade de experimentá-lo. Quando chegava em casa depois de um dia cansativo de trabalho e estudo, subia o pequeno barranco e me virava para o verde, agradecendo com meu silêncio e com meus olhos por ele estar ali. Não sei dizer bem o que sentia, só que era uma sensação muito boa. Deveria ter prestado atenção enquanto podia senti-la, ter escrito sobre isso enquanto era tempo. Há dois meses não sinto mais essa sensação, senão pelo que guardei na lembrança. Um grupo de pessoas invadiu a área e derrubou a pequena mata para fazer casas – ou trocar o terreno por uma televisão ou celular, como fiquei sabendo. Serra elétrica, fogueiras, bichos fugindo, mosquitos aos montes, cinzas, fumaça. Em dois meses não resta mais nada dela. Em plena campanha contra o aquecimento global. Mas como condenar essas pessoas? Ouço comentários do tipo “fulano nem precisa, já tem casa”, ou “ele vendeu o terreno por uma TV de 20’’, será que estava precisando mesmo?”. Sei não. Eu tenho uma vida relativamente boa, sobra dindin a cada mês pra fazer um monte de coisas legais além das contas do mês, como ir ao cinema, comprar um bom livro, passear com a namorada. Se eu ganhasse menos de R$500,00 por mês, poderia esquecer metade das coisas que mencionei. Se tivesse mulher e filho então, nem pensar em sobrar dinheiro. Será que eu me recusaria a ganhar um dinheiro fácil derrubando algumas árvores e cercando o terreno com arame farpado? Só estando na mesma situação pra saber.
4. Puts, e agora? Não quero falar sobre desigualdade social. Melhor parar estes devaneios por aqui, senão por eles mesmos é que não vão parar (risos).
PS: Isso aqui começou com a pretensão de ser um texto literário, um monólogo de um personagem qualquer, mas acabou sendo um monólogo quase todo meu (isso explica aquele início esquisito). Menos mal, ao menos exercitei um pouco a escrita e tenho algo para colocar no blog. E não levem tão a sério o que a pessoa diz num dia em que está morrendo de sono. Tipo, eu no dia de hoje, rs.
Um abraço, pessoas!
Escrito por carlos às 10h44
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“Só de vez em quando meu coração suspira. Um aperto no peito, vontade de ser vento, de sair voando varanda a fora. Sempre me sinto livre independe do local onde esteja, mas em alguns momentos gostaria de estar outro lugar.
Só de vez em quando eu gosto de um alguém por quem eu sinto um imenso carinho e admiração. E quando eu percebo e recebo a demonstração de carinho vinda desse alguém, meu coração se aperta e é aí que adoraria estar em outro lugar.”
E-mail recebido tempos atrás de uma amiga muito querida com quem perdi o contato... Muitas saudades!!!
Escrito por carlos às 16h26
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Olá, pessoas!
Quanto tempo!
Tenho reservado menos tempo que antes para escrever. Acho que deu pra perceber, né?
No ano passado tentei passar nas faculdades públicas para o curso de Letras, sem sucesso. Sem tempo para estudar para o vestibular, não dá. Eu até me classifiquei bem, sempre fiquei na lista de espera ali entre o quinto e o décimo da fila. Enfim, resolvi fazer uma particular e cá estou próximo ao fim do primeiro período bem mais satisfeito que estava na Contabilidade. Estudando teorias sobre gênese do conhecimento no ser humano, literatura, latim e as tendências pedagógicas – onde conheci, finalmente, algo sobre Paulo Freire, este ilustre educador brasileiro que pautou sua vida na defesa dos pobres e marginalizados.
Permitam-me falar um pouco mais sobre este grande homem. Ler um livro seu, com sua escrita apaixonada e sonhadora é reavivar dentro de nós aquele ser que sonha ver o mundo diferente deste que conhecemos, dividido entre uma minoria rica, detentora dos melhores bens que a humanidade produz, e uma imensa maioria pobre, marginalizada e explorada, sem direito, muitas vezes, à paz, ao lar, ao trabalho e ao pão de cada dia. O mais interessante em Freire é saber que sua teoria esteve intimamente ligada com a prática, ou melhor, nasceu dela e com ela se renovou a cada nova experiência. Através de seu método educacional, buscou levar a luz do saber àqueles a quem este é negado para que, munidos da arma poderosa do conhecimento, enxergassem a opressão em que se encontravam e lutassem pela transformação da sociedade. É quase utópico, mas perfeitamente possível. Para quem não acredita, já se tentou de tudo nesse mundo e nada deu certo. Eu penso que vale à pena tentar sempre, acreditar que este mundo pode ser melhor. Sem isso, nossa existência fica sem sentido neste mundo. Se não acreditarmos em Deus, numa outra vida além desta e na mudança deste mundo, sinceramente, viver não tem o menor sentido.
Pensem nisso.
Um abraço a todos!
Escrito por carlos às 12h02
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Depois de um mês inteiro sem postar nada novo, quero compartilhar com vocês uma grande alegria. O conto dos posts abaixo foi premiado com o segundo lugar no I Concurso de Contos da Universidade Estadual do Amazonas assim, da forma como está. Talvez tivesse ganho o primeiro lugar, tivesse um final melhor, mas, já estou trabalhando nisso. Ao menos ganhei vários livros de escritores amazonenses que eu já estava desejando comprar, além de uma visita ao hotel de selva mais famoso das redondezas de Manaus, o Ariaú Towers (essa é uma opinião pessoal que pode não condizer com a realidade).
Caso alguém tenha a leve impressão de que já o leu alguma vez na vida, não se espante: postei um rascunho sem final dele na metade do ano passado.
Um abraço a todas as pessoas que ainda insistem bravamente em vir a este blog que quase nunca é atualizado. (risos)
Escrito por carlos às 11h58
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Maria, a louca
Nuvens turvas começavam a se espalhar com velocidade pelo céu, preparando um pé d’água para logo mais. Ela caminhava pelo centro comercial, fazia compras, desprevenida, escolhia coisas para a casa, roupas para si, para as crianças, para o marido. Olhava as vitrines, entrava nas lojas, indagava os vendedores, pechinchava. Um sentimento de cumprimento do dever lhe impulsionava a escolher bem, comparar mais, ainda que em seus pés já começassem a incomodar os primeiros calos. (Pudera, o sapato com salto, ainda que pequeno, para quem sabe que vai andar, não é boa escolha. Tudo bem, foi o único que caiu bem com a roupa escolhida.) Caminhava só, conversando consigo sobre as opções, os preços, a qualidade dos produtos, os gostos dos seus. Crente de que estava escolhendo certo, agradaria a todos, as contas batiam direitinho com o orçamento daquela saída.
Então as nuvens começaram a desabar pelo centro, pela orla e por toda a cidade. Teriam os seus pequenos lembrado de tirar a roupa do varal? E a cama, será que desviaram do vazamento bem no meio do seu quarto? E as janelas? Ai, aqueles meninos iam ver uma coisa se a casa estivesse encharcada quando ela chegasse! Enquanto isso esperava, impaciente, a chuva parar, abrigada embaixo da cobertura frontal de uma loja. Um casal de namorados passeava de mãos dadas, rindo à toa, trocando beijos com a freqüência de poucas passadas. Passaram à sua frente e, embora houvesse pouco espaço para a passagem, esforçaram-se para não soltarem as mãos. Ela os observava, inerte, incrédula, saudosa daquele tipo de carinhos. “Logo o tempo passa e ele mal vai ter ânimo para segurar a mão dela”, pensava. “Quando os filhos chegarem, então, aí é que as coisas mudam mesmo. Qualquer coisa é pretexto para sair de casa ou evitar uma conversa, um pouco de namorico”, emendava.
Olhou para as compras, pensara em todos, não esquecera nenhum. Quem lembraria dela?
“Vida de mãe é mesmo um martírio diário”, consolava-se. Verdade, no dia da mulher ganhara uma linda flor; no dia das mães, ganhara um celular que ainda não se acostumara a usar, esse ano havia sido melhor. Mas e nos outros dias, quem se lembraria? E nem justificava mais essa falta de lembrança. O coração se apertara mais, maldita chuva que a prendera lá naquele local para ver o casal feliz passeando de mãos dadas. Estava já tão bem acomodada na sua realidade de mal casada, não merecia o castigo de ver a felicidade alheia! ainda que fosse passageira.
Um vendedor ambulante aproveitou a oportunidade e caminhava por entre as pessoas oferecendo guarda-chuvas a um preço acima do normal. A chuva já não caía tão forte, estabilizara, mas não a permitiria caminhar até a parada, longo caminho, sem chegar muito molhada ao destino. Aquele usurpador ironicamente se tornara sua salvação naquele fim de tarde com ares de noite, por causa da chuva e das nuvens. Comprou o guarda-chuva e caminhava, absorta, pelas ruas. Já não era a casa com suas janelas e goteiras e camas e roupas. Já não eram as compras, a ansiedade em saber se ficariam bem as blusas em seus destinatários, se a roupa de cama agradaria ao seu “digníssimo”. Era ela mesma, carnes e peles e ossos, esposa e mãe, a matéria-prima daqueles pensamentos de caminho solitário. Ela, filha e irmã, confrontando-se àquela mocinha feliz de mãos dadas com seu namorado. Caminhava, os pingos de chuva molhando seus pés calejados, suas pernas doloridas, mas ela não sentia mais isso. Havia outra coisa lhe incomodando infinitamente mais que um calo. Havia nela um coração, pulsante, vívido, inflamado por aquela confrontação, ela que era tanta coisa, e já não se sabia mulher. Sim, ela era mulher, sentimentos, carinhos, cuidados, desejos, curvas. Ela era mulher ainda, mesmo que para seu marido ela fosse só esposa. “Esposa não é mulher”, pensava. “Mãe não é mulher, filha não é, irmã não é”. Mas ela era mulher e essa súbita lucidez lhe causou calafrios. “Eu, mulher?” Melhor ser só esposa, cuidar da casa, preparar a janta. Melhor ser filha, cuidar da mãe internada, de suas roupas, seus objetos pessoais. Melhor ser irmã dedicada, resolver os problemas da família, ajudar financeiramente, ela que estava relativamente bem na vida. Melhor ser mãe, ver a tarefa de casa, velar pela saúde dos filhotes. Ser mulher, nessa altura da vida, seria exigir demais de si. E, no entanto, sua natureza feminina emergiu na tarde de chuva, no espelho da menina apaixonada. Ela, mulher, viu-se transtornada. Já não tinha em mente o caminho e todas as paradas de ônibus pareciam ter sumido do mapa, restando somente o caminho de asfalto e cimento para ela caminhar. Transtornada, ela, mulher. Sentou-se, mulher, na beira da calçada, como se não estivesse bem vestida, como fosse mendiga, as compras espalhadas em seu redor.
(continua abaixo)
Escrito por carlos às 11h39
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